Abre hum pasmado a boca,
E a pedra não despede;
Outro já não se lembra
Da fome, e mais da sede:
Descança o curvo bico, e a garra impia
Negro abutre esfaimado:
Nem a roca medonha a Parca fia,
Até as mesmas Furias inclementes
Deixão cahir das unhas as serpentes.
Já votão os Juizes;
E o Rei Plutão lhe ordena
Deixe o sitio, em que ficão
Almas dignas de pena.
Já sahe do escuro Reino, e da memoria
Lhe passa tudo quanto
Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
Inda, Marilia, inda diz teu nome.
Entra já nos Elysios
Campinas venturosas,
Que mansos rios cortão,
Que cobrem sempre as rosas.
Escuta o canto das sonoras aves,
E bebe as agoas puras,
Que o mel, e de que o leite mais suaves.
Aqui, diz elle, espero a minha bella,
Aqui contente viverei com ella.
Aqui… porém aonde
Me leva a dôr activa?
He illusão desta alma.
Jove inda quer que eu viva.
Eu devo sim gosar teus doces laços;
E em paga dos meus males
Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
Então eu passarei ao Reino amigo;
E tu irás despois lá ter comigo.
LYRA XVIII.
Não mólho, Marilia,
De pranto a masmorra
Que o terno Cupido
Não vôe, e não corra,
A hilo apanhar.
Estende-o nas azas
Sobre elle suspira,
Por fim se retira,
E vai-to levar.
Se o moço não mente,
Aos tristes gemidos,
Aos ais lastimosos
Não guardes unidos,
Marilia, c'os teus:
As lagrimas nossas
No seio amontôa
Fórma azas, e vôa,
Vai pô-las nos Ceos.
A Deosa formosa,
Que amava aos Troianos,
Livra-los querendo
De riscos, e damnos
A Jove buscou.
As aguas, que o rosto
Da Deosa banhárão,
A Jove abrandárão,
E assim os salvou.
Confia-te, ó bella,
Confia-te em Jove;
Ainda se abranda,
Ainda se move
Com ancias de amor.
O pranto de Venus,
Que obrou no Pai tanto,
Não tem que o teu pranto
Apreço maior.