Nesta triste masmorra,
De hum semivivo corpo sepultura,
Inda, Marilia, adoro
A tua formosura.
Amor na minha idéa te retrata,
Busca extremoso, que eu assim resista
Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

Quando em meu mal pondero,
Então mais vivamente te diviso:
Vejo o teu rosto, e escuto
A tua voz, e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos:
Eu beijo a tibia luz em vez de face;
E aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a illusão minha;
A violencia da mágoa não supporto;
Foge-me a vista, e caio
Não sei se vivo, ou morto.
Enternece-se Amor de estrago tanto;
Reclina-me no peito, e com mão terna
Me limpa os olhos do salgado pranto.

Despois que represento
Por largo espaço a imagem de hum defunto,
Movo os membros, suspiro,
E onde estou pergunto.
Conheço então que Amor me tem comsigo;
Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
E com doente voz assim lhe digo.

Se queres ser piedoso,
Procura o sitio em que Marilia móra,
Pinta-lhe o meu estrago,
E vê, Amor, se chora.
Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
Huma dellas me traze sobre as pennas,
E para allivio meu só isto basta.

LYRA XX.

E me visses com teus olhos
Nesta masmorra mettido;
De mil idéas funestas,
E cuidados combatido:
Qual seria, ó minha bella,
Qual seria o teu pezar?

Á força da dôr cedêra;
E nem estaria vivo,
Se o menino Deos vendado,
Extremoso, e compassivo,
Com o nome de Marilia
Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva;
O meio dia tem dado,
E o cabello inda flutua
Pelas costas desgrenhado.
Não tenho valor, não tenho;
Nem para de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marilia;
Não estima esse cabello?
Se o deixas perder de todo
Não se ha de enfadar ao vêllo?
Suspiro pego no pente,
Vou logo o cabello atar.