Por morto, Marilia,
Aqui me reputo:
Mil vezes escuto
O som do arrastado,
E duro grilhão.
Mas, ah! que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

A chave lá sôa
Na porta segura:
Abre-se a escura,
Infame masmorra
Da minha prizão.
Mas, ah! que não treme;
Não treme de susto
O meu coração.

Eu vejo, Marilia,
A mil innocentes
Nas Cruzes pendentes,
Por falsos delictos,
Que os homens lhes dão.
Mas, ah! que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Se penso que posso
Perder o gozar-te
A gloria de dar-te
Abraços honestos,
E beijos na mão.
Marilia, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.

Repára, Marilia,
O quanto he mais forte
Ainda que a morte,
N'um peito esforçado
De amor a paixão.
Marilia, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.

LYRA XXIII.

Não praguejes, Marilia, não praguejes
A justiceira mão que lança os ferros:
Não traz de balde a vingadora espada;
Deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem
As mãos se derão, e em seu peito morão.
Mandão prender ao Réo austera a boca,
Porém seus olhos chorão.

Se á innocencia denigre a vil calumnia
Que culpa aquelle tem que applica a penna.
Não he o Julgador, he o processo,
E a lei quem nos condemna.

Só no Averno os Juizes não recebem
Accusação, nem prova de outro humano;
Aqui todos confessão suas culpas,
Não póde haver engano.