Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
Huma o fogo chega, outra as serpes move;
Todos maldizem sim a sua estrella,
Nenhum accusa a Jove.

Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
Qual eu sou, minha bella, não me trata,
Trata-me qual pareço.

Quem suspira, Marilia, quando pune
Ao vassallo que julga delinquente;
Que gosto não terá podendo dar-lhe
As honras de innocente?

LYRA XXIV.

Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
Aqui aqui a espero
Nestes despidos braços.
He hum malhado tigre; a mim já corre,
Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
Com faminta paixão a mim se lança;
Venha embora, que o pulso
Ainda não se cança.
Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
Entendes que os destinos inhumanos
Expoem a minha vida
No cêrco dos Romanos?
Com ursos, e com onças eu não luto.
Luto c'o bravo monstro que me accusa;
Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

Embora contra mim raivoso esgrima
Da vil calumnia a cortadora espada;
Huma alma, qual eu tenho,
Não se recêa a nada.
Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
Co' as armas invenciveis da innocencia.

Ah, quando imaginar, que vingativo
Mando que desça ao Tartaro profundo
Hei-de com mão honrada
Erguer-lhe o corpo immundo.
Eu então lhe direi: Infame, indîno,
Obras como costuma o vil humano;
Faço o que faz hum coraçao divino.

LYRA XXV.