Minha Marilia,
O passarinho,
A quem roubárão
Ovos, e ninho,
Mil vezes pousa
No seu raminho,
Piando finge
Que anda a chorar.
Mas logo vôa
Pela espessura,
Nem mais procura
Este lugar.

Se acaso a vacca
Perde a vitéla,
Tambem nos mostra,
Que se desvéla,
O pasto deixa,
Muge por ella,
Até na estrada
A vem buscar.
Em poucos dias,
Ao que parece,
Della se esquece,
E vai pastar.

O voraz Tempo,
Que o ferro come,
Que aos mesmos Reinos
Devora o nome,
Tambem, Marilia,
Tambem consome
Dentro do peito
Qualquer pezar.
Ah só não póde
Ao meu tormento
Por hum momento
Allivio dar.

Tambem, ó bella,
Não ha quem viva
Instantes breves
Na chamma activa;
Derrete ao bronze
Sendo excessiva
Ao mesmo seixo
Faz estalar.
Mas do amianto
A fêbra dura
Na chamma atura
Sem se queimar.

Tambem, Marilia,
Não ha quem negue,
Que bem que o fogo
Nos oleos pegue,
Que bem que em lingoas
Ás nuvens chegue,
Á força d'agoa
Se ha de apagar.
Se a negra pedra
Nós accendemos,
Com agoa a vemos
Mais s'inflammar.

O meu discurso,
Marilia, he resto:
A pena iguala
Ao meu affecto.
O amor que nutro
Ao teu aspecto,
E o teu semblante
He singular.
Ah! nem o tempo,
Nem inda a morte
A dôr tão forte
Pode acabar.

LYRA XXVI.

Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
Ainda se despenha muitas vezes,
E dois remedios junta.

De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
Sim me queixo de que má céga seja
Céga que nem pergunta, nem apalpa,
He porque errar deseja.

A quem gastar não sabe, nem se anima,
Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
E lança na miseria a quem conhece
Para que serve o oiro.