A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
Que a traz do vicio em liberdade corra,
Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
N'esta vil masmorra.
Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
Co' a sólida razão se não coaduna,
Como me queixo da Fortuna tanto,
Se sei não ha Fortuna?
Os Fados, os Destinos, essa Deosa
Que os Sábios fingem que huma roda move
He só a occulta mão da Providencia,
A sábia mão de Jove.
Nós he que somos cegos, que não vemos;
A que fins nos conduz por estes modos;
Por torcidas estradas, ruins varedas
Caminha ao bem de todos.
Alegre-se o perverso com as ditas;
C'o seu merecimento o virtuoso;
Parecer desgraçado, ó minha bella,
He muito mais honroso.
LYRA XXVII.
A minha amada
He mais formosa
Que branco lyrio,
Dobrada rosa,
Que o cinnamomo,
Quando matiza
Co' a folha a flor.
Venus não chega
Ao meu Amor.
Vasta campina
De trigo chêa,
Quando na sésta
C'o vento ondêa,
Ao seu cabello
Quando flutua
Não he igual.
Tem a côr negra:
Mas quanto val!
Os astros, que andão
Na esfera pura,
Quando scintilão
Na noite escura,
Não são humanos,
Tão lindos, como
Seus olhos são.
Que ao Sol excedem
Na luz que dão.
Ás brancas faces,
Ah! não se atreve
Jasmis de Italia,
Nem inda a neve,
Quando a desata
O Sol brilhante
Com seu calôr.
São neve, e causão
No peito ardôr.