Ah! leve muito embora o duro Fado;
A tudo quanto tenho
Com meu suor ganhado.
Eu juro, que do roubo nem me queixe,
Com tanto, ó minha cara,
Que este só bem me deixe.
Que males voluntarios não subírão,
Os que te amão, sómente
Porque menos te ouvírão?
Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
Que eu tenho aquella gloria,
Que a mil felizes nega.
LYRA XXXII.
Se o vasto mar se encapella,
E na rócha em flor rebenta,
Grossa náo, q' não tem léme,
Em vão sustentar-se intenta;
Até que naufraga, e corre
Á discrição da tormenta.
Quem não tem huma Belleza,
Em que ponha o seu cuidado,
Se o Ceo se cobre de nuvens,
E se assopra o vento irado,
Não tem forças que resistão
Ao impulso do seu fado.
Nesta sombria masmorra,
Aonde, Marilia, vivo,
Encosto na mão o rosto,
Fico ás vezes pensativo.
Ah! que imagens tão funestas
Me finge o pezar activo.
Parece que vejo a honra,
Marilia, toda enlutada,
A face de hum pai rugosa,
N'um mar de pranto banhada,
Os amigos mascilentos,
E a familia consternada.
Quero voltar os meus olhos
Para outro diverso lado,
Vejo n'uã grande Praça
Hum Theatro levantado.
Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
Vejo o Alfanje afiado.