Hum frio suor me cobre,
Lação-se os membros, suspiro,
Busco allivio ás minhas ancias,
Não o descubro, deliro.
Já, meu Bem, já me parece,
Que nas mãos da morte espiro.
Vem-me então ao pensamento
A tua testa nevada,
Os teus meigos, vivos olhos,
A tua face rosada,
Os teus dentes crystallinos,
A tua boca engraçada.
Qual, Marilia, a estrella d'alva,
Que a negra noite affugenta,
Qual o Sol, que a nevoa espalha
Apenas a terra aquenta,
Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
Quando se vê na tormenta.
Assim, Marilia, desterro
Triste illusão, e demencia;
Faz de novo o seu officio,
A razão, e a prudencia;
E firmo esperanças doces
Sobre a candida innocencia.
Restauro as forças perdidas,
Sóbe a viva côr ao rosto;
Gyra o sangue pela vêa,
E bate o pulso composto.
Vê, Marilia, o quanto póde
Contra os meus males teu rosto.