Este he de Omphale o retrato:
Aqui tens (quem o diria!)
Ao grande Hercules sentado
Com as mais damas no estrado,
Onde em seu obsequio fia.
Anda agora a est'outra parte:
Conheces, Dirceo, aquella?
Onde váes? (lhe digo:) explica,
Que belleza aqui nos fica,
Sem fazeres caso della?
Ergo os olhos ponho a vista
Na imagem não explicada,
Ó quanto he digna de appreço!
Mal exclamo assim, conheço
Ser a minha doce amada.
O coração pelos olhos
Em terno pranto sahia,
E no meu peito saltava:
Disfarçado Amor, olhava
Para mim a furto, e ria.
Depois de passado tempo,
A mim se chega, e me aballa;
Desperto de tanto assombro:
Elle bate no meu hombro,
E assim affavel me falla.
Sim, caro Dirceo, he esta
A divina formosura,
Que te destina Cupido;
Aqui tens o laço urdido
Da tua immortal ventura.
O Numen, Dirceo, o Numen
Que aos trabalhos de hum humano
Desta sorte felicita,
Não he, como se accredita,
Não he hum Numen tyranno.
Olha se a cega Fortuna
De tudo quanto se cria,
Ou nos mares, ou na terra,
Em o seu thesouro encerra
Outro bem de mais valia?
Lizas faces côr de rosa,
Brancos dentes, olhos bellos,
Grossos beiços encarnados,
Pescoço, e peitos nevados,
Negros e finos cabellos;
Não vale mais, que cingires
Co' braço de sangue immundo
Na cabeça o verde louro?
Do que teres montes d'ouro?
Do que dares leis ao mundo?