Eu vou entrando na espaçosa barra:
A grossa artilheria já me atrôa.
Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
Já corre pela prôa
Huma amarra ligeira;
E a Náo já fica surta
Diante da grã Lisboa.

Agora, agora sim, agora espero
Renovar da amizade antigos laços:
Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
Arrasta a mim os passos:
Ah como vem contente!
De longe mal me avista
Já vem abrindo os braços.

Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
E manda que dos pés ao peito passe:
Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
Antes que os pés lhe abrace
Nos braços a sustenta;
Dá-lhe de filha o nome,
Beija-lhe a branca face.

Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
Conheço não estar no claro Tejo.
Abro os olhos, procuro a minha amada,
E nem se quer a vejo.
Venha a hora affortunada,
Em que não fique em sonhos
Tão ardente desejo.

A huma despedida.

Chegou-se o dia mais triste,
Que o dia da morte fêa:
Cahi do throno Dircéa,
Do throno dos braços teus.
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te meu bem adeos.

Impio Fado, que não pôde
Os doces laços quebrar-me,
Por vingança quer levar-me
Distante dos olhos teus.
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te meu bem adeos.

Parto em fim, e vou sem vêr-te,
Que neste fatal instante,
Ha de ser o teu semblante
Mui funesto aos olhos meus.
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te meu bem adeos.

E crês, Dircéa, que devem
Vêr meus olhos penduradas
Tristes lagrimas salgadas
Correrem dos olhos teus?
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te meu bem adeos.

De teus olhos engraçados,
Que podérão piedosos,
De tristes em venturosos
Converter os dias meus?
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te meu bem adeos.