Quando te ris por acaso
Para outro qualquer sugeito,
Estala dentro do peito
De ciume o coração:
Se me pões os olhos julgo
Que zombas de mim então.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando ha brinco na floresta,
E a divina Olaia canta,
O mesmo gado levanta
A cabeça para ouvir.
Só por mais que Alceo forceje
Não póde o prazer fingir.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando levo á clara fonte
O rebanho do meu gado,
Cáhe-me da mão o cajado,
E com ella á testa vou:
Fico pasmado, e ignoro
O lugar aonde estou.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando vou segar o trigo,
(Olha bem como ando cego.)
N'uma parte nelle pego,
Metto n'outra a fouce em vão;
Dos que vem alguns se riem,
Outros mostrão compaixão.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando me deito no colmo,
Sempre sonho que te vejo,
Que te fallo, e que te beijo
A branca nevada mão.
Acórdo, Pastora, e foges:
Eu fico mais triste então.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando alguem meu mal pergunta,
Bem que seja a vez primeira,
Rompo ainda que não queira
O segredo sem saber.
O teu nome, Elvira, digo,
Quando devo o seu dizer.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Fujo ao trato dos pastores,
Para hum bosque me retiro;
Com desafogo suspiro,
E chamo por ti meu bem.
Os valles que se enternecem
Chamão-te ao longe tambem.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Quando escuto o triste mocho
A gemer no meu telhado,
Qualquer mal excogitado
Não me deve algum temor:
Só receio que me agoure
Máo successo ao meu amor.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.
Os pastores que me avistão
Com o dedo já me apontão,
E á roda do fogo contão
Da maneira que me vem.
Sou o exemplo dos amantes
Que esta nossa Aldêa tem.
E talvez, talvez que Elvira
Nem se lembre de que Alceo,
Se suspira,
Se delira,
He só por motivo seu.