Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Accreditei as vozes, cri, Ormia,
Que a tua singeleza igualaria
Á tua mais que angelica apparencia.

Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Ao menos conheci que não devia,
Pôr nas mãos de huma externa galhardia
O prazer, o socego, e a innocencia.

Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
E nada me admiro de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdestes mais em me enganares;
Que tu não acharás hum firme amante,
E eu posso de traidoras ter milhares.

SONETO IV.

Ainda que de Laura esteja ausente,
Ha de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se não nos olhos meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vêla, e eternamente
Abraço a sombra vã; só nesse instante
Conheço que ella está de mim distante,
Que tudo he illusão que esta alma sente.

Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
Por innocente assim melhor persista:

Pois quando só na idéa ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende vista,
Esconde as obras com que offende ingrata.

SONETO V.