Não soffre hum estômago debilitado muita comida, nem a impetuosa torrente, que se lhe opponhão obstaculos; em huma e outra crise he necessario muita prudencia, pois he nestes lances, que o primeiro repôem com tédio, o que devia servir-lhe d'alimento, e o segundo arrasta diante de si quanto pertende impedir o livre curso das suas agoas. Nestas mesmas circunstancias me achava eu, quando o Povo do Porto, e d'outras muitas terras deste Reino, por effeito de hum papel verdadeiramente ridiculo, intitulado «Borbolêta,» que narrando hum facto acontecido no Convento dos Padres Carmelitas Descalços, não só obteve pela soltura da sua lingua mordaz o crédito da gentalha sempre amiga de novidades, e facil em acreditar as cousas «maxime» quando vem em letra redonda, que então julga tudo tão verdade, como se fôra hum Evangelho, mas ainda o crédito de muitos homens cordátos, que se persuadirão das suas imposturas; fazendo-se geral a opinião de que os taes Padres erão «crueis, e barbaros,» pois sem piedade castigavão com tanto rigor hum seu alumno innocente. Vendo eu a calumnia, o descaramento, e a cordilheira de mentiras mais altas que o Ararat, e mais extensas que as montanhas da Persia, e ao mesmo tempo o opprobrio, que padecião os ditos Padres, tão sem razão, pois sabía a sua innocencia, quiz desaffrontalos por meio das minhas reflexões, e dar ao mundo hum monumento veridico do justificado procedimento de toda a Corporação, contra os aleives, e impiedades do tal papel, cheio de incoherencias, falsidades, e até de hum aggregado de sandices, e de hypocrisias. Apresentar tudo isto de chapada era infartar hum Povo, que, preocupado com as idêas da Borbolêta, longe de abraçar as verdades, que lhe propunha, as rejeitaria, como outras tantas quimeras; pois hé certo, que enche o cantaro primeiro, (a não ser pirguiçoso) quem primeiro chega á fonte, e custa muito a desvanecer as primeiras impressões. Como somos mais faceis em acreditar o mal do que o bem, pois temos para hum propensão natural, e para o outro certa repugnancia, tambem seria difficil o fazer mudar a todos de conceito em hum tempo, em que a bilis estava exaltada, e as cabeças em effervescencia. Não era por tanto conveniente oppor-me a hum, e a outro, e por isso determinei fazer o que os Medicos aos estômagos fracos, isto he, dar pouco a pouco, e deixar passar a tempestade, para depois formar hum dique, que atalhasse a corrente. Com estas vistas procurei inserir por partes, as minhas reflexões em algum Periodico, pois até por este meio se espalhavão melhor, e vinhão assim a dervanecer-se as idéas sinistras, de que o povo estava imbuído. Tendo chegado á minha mão o papel da Borbolêta, o N. 131 no dia 21 de Outubro, logo no dia seguinte enviei ao Redactor do Correio do Porto a primeira Carta, pedindo-lhe de mercê a publicasse no seu Periodico, e que eu iria continuando a remetter-lhe todos os correios, ou quando as minhas occupações me dessem lugar, as provas de cada huma das quatro proposições, que lhe indicava. São já passados quasi dous mezes, e nada tem apparecido, e por esta causa, rogado dos meus amigos, determino-me a dar ao Publico as ditas reflexões, em quatro folhetos separados, posto que o primeiro vai sem mudança, e do mesmo modo, que o remetti ao Redactor do Correio do Porto, por não haver tempo de o reduzir a hum novo methodo, visto ser tão urgente a necessidade de desenganar o mundo illudido com os desparates da Borbolêta, e acudir pelo credito de homens tão benemeritos, quaes os Padres Carmelitas Descalços. Adoptei o titulo de «Verdade a passo lento» não só porque ella custa a chegar a todos, mas sim porque irei pouco a pouco assoalhando as mentiras da Borbolêta, pondo-lhe guerra como Escaravelho, cujas pontas são mais agudas, e de maior poder. Alem de andar mui vagaroso, tem o Escaravelho de mais a mais huma maçã, com que lhe pode ensaboar as barbas, ou faze-la retroceder com o cheirinho. Fio dos amantes da verdade que farão justiça ao Escaravelho contra a decantada Borbolêta, os N. N. 131 e seguintes e a imparcialidade decidirá, que não só nenhum credito merece o tal papel, mas antes he digno de que todos o detestem, tornando-se por este modo defensores da innocencia opprimida, assim como eu me protesto ser sempre até á morte

Inimigo declarado dos Impostores, verdadeiro Constitucional.

Vale.

PRIMEIRA
CARTA

22 DE OUTUBRO DE 1821.

Senhor Redactor do Correio do Porto.

Por hum lance imprevisto veio ter á minha mão a folha de hum Periodico intitulado = Borbolêta Constitucional = e vem a ser o N.º 131. Fiquei suspenso, e como fóra de mim ao lêr no frontespicio desta Obra, (que deve ser d'algum máo trolha) a Epigraphe em letras maiuscuas = Serão só sepultados vivos os Frades Carmelitas Descalços? = Com esta pasmosa interrogação suspeitei logo que os taes Frades terião comettido algum crime de lesa Magestade Divina, ou lesa Nação; pois só por hum tal attentado se póde merecer hum castigo tão atróz, usado só por vezes entre as Nações barbaras. Que farião, Deos meu, estes bons Padres, dizia eu cá para mim sósinho? Que farião elles? Conheço ha tantos annos a sua bondade, e o seu porte regular, e edificante, mas no estado presente não faltão malvados, e vem tempo, em que as cousas boas tambem degenerão; certamente temos por aqui alguma corcundisse, ou hypocrisia!!! mas reparo que a Epigraphe diz = Serão sepultados vivos? Então, disse eu, o crime he maior, que o de Corcunda, e de hypocrita! Na verdade tremi de frio susto, e assim mesmo botei-me a lêr a malgamação de cousas, de que estava cheia a tal folha da Borbolêta, e confesso que do estado apathico, em que me vi, passei rapidamente ao de frenetico. E não teria eu razão bastante, Senhor Redactor? Hum papel público, que anda pelas mãos de todos, hum Periodico, que vai correndo o mundo, e que se julga apologista da verdade, critico exacto, illustrador da Nação, amante da humanidade, e da sua Patria, não ter nada disto! Quero dizer, ser hum impostor, mentiroso, injuriador maligno dos membros da Nação, sem caridade, e até sem patriotismo!!! Isto he que faz escandecer o «Caco». Li, Senhor Redactor, e reli o tal papel, e desejei ser hum Hercules verdadeiro para descobrir, e pôr ao sól o vasio craneo deste novo «Caco» mais manhoso, que o primeiro, de que falla a fabula. Tive intentos de me fazer Periodiqueiro, não pelo lucro, mas sim para dar ao Público huma desforra sobre a impiedade do tal homem «Borbolêta»: mas lembrei-me que por este meio não conseguia o meu intento. He hum Rifão de Direito, que «as cousas se desfazem pelos mesmos principios, ou causas, a que devem a origem,» e por isso julguei conveniente inserir as minhas reflexões em algumas das Folhas, que se publicão nessa Cidade, e me lembrei da sua, e assim pelo mesmo modo, e meios que se publicou a mentira, chegava a todos a noticia da verdade. Não conheço (nem me ficão desejos disso) o Author da Borbolêta, e por este motivo não atacarei sua pessoa: he verdade que o merecia bem, pois ella ataca huma Corporação inteira, tão respeitavel em Portugal pela sua decidida observancia; e, se em algum lance convinha a pena de talião, era este a meu vêr, o mais decidido; e ainda assim não ficava equibrado o castigo com a grandesa do delicto. A Borbolêta desauthorisa, e enxovalha, e tracta de ridiculo huma Corporação inteira, cheia de homens honrados, sábios, e virtuosos; e a Borbolêta he hum insecto vil, huma metamorphose nojenta, inteiramente inutil ao mundo, e que nada se perde se a lançarem ao fogo, ou a enterrarem viva. Com tudo respeitarei sua pessoa, por dar exercicio á Caridade, e esta virtude pede que assim se tracte, ainda que seja hum inimigo: pretexto faze-lo assim com este lobo disfarçado, ou raposa solapada com mais ronha, que huma cabra velha. Pelos seus escriptos penetro a bondade das suas intenções, e pureza de sentimentos, vejo a boa indole, que o aníma, e até me parece que adivinho de que he composta a sua entidade physica. Nada porém direi, torno a repetir, senão do seu escripto verdadeiramente = Impio = cheio de = Falsidades = Anti-fradesco = Anti-Christão = Darei a conhecer ao Público (este he o assumpto geral) a nenhuma fé, que merece o tal papel, ou, melhor, quanto deve ser abominado pelo seu máo animo, falta de logica, de Charidade, e de Patriotismo, pois tudo isto se acha nelle. «Abque eo, quod intrinsecus latet.»

Sirva-se, Senhor Redactor, de publicar no seu Periodico esta primeira Carta, que servirá como Exordio de Sermão ás quatro proposições indicadas, que tenho de provar pouco a pouco, e, se me não engano, darão ao seu Periodico materia para muito tempo. Não me dirijo ao Author da Borbolêta, não porque lhe tenha medo, pois o tal bicho a ninguem o mete, mas sim porque o não julgo tão despido de amor proprio, (pelo seu escripto parece ter cara d'aço) para ser sincero, e fiel nesta Causa, em que elle he réo, ou parte; e he necessario ter huma alma muito boa, e huma virtude não vulgar, para que hum réo, ou parte deponha contra si, quando tem na mão os monumentos do seu crime, e que póde rasgar a seu salvo sem que alguem o possa presumir. A distancia do lugar, aonde vivo, fará retardar as minhas participações, assim como retardão os papeis, que chegão á minha mão, e os monumentos, que espero dessa Cidade. No estado presente queria ter azas de Borbolêta para voar á sua Officina, e dar-lhe ahi boas torquezadas, mas não me quiz dar o Céo o que liberalisou a este animalejo, e o remedio está na paciencia. Espero que v. m. a terá com este, que he deveras.

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.{11}

P. S.