Senhor Redactor, depois desta feita, recebo o N. 132 da Borbolêta. Veja, veja lá como, sacudindo as azas, veio a cegar a gente com tanta poeira![[1]] Acuda a isto, Senhor Redactor; por Deus lh'o peço, imprimindo logo esta para bem da humanidade, e até da mesma Borbolêta; pois, se lhe não cortâmos os voadouros da lingua, temo que diga mal até do SS. Sacramento. Sou, como devo,

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.

SEGUNDA CARTA.

Quinta feira 25 de Outubro.

«Impius odit lucem» = E a luz mata a Borbolêta.

Senhor Redactor, vou principiar o meu Discurso, ou Sermão, de que já lhe remetti o Exordio. A primeira proposição, que prometti mostrar,{12} era = O papel da Borbolêta, o N.º 131, he verdadeiramente = Impio. = Não será difficil prova-lo, attendendo á genérica accepção da palavra. Muitos Authores, diz o Abbade Bergier, dão o nome de impio só áquelle, que blasfema de hum Deos, que acredita e adora no fundo do seu coração; mas o uso ordinario he dar este nome ao desprezo formal, e affectado da Religião, dos seus Ministros, das Cousas Santas, dos actos de virtude, e devoção dos Povos: pode tambem qualquer acto de crueza chamar-se impiedade; porque neste genero, diz hum Author, he impiedade e barbaro gosto de ver padecer a outro. Deixando para tempo opportuno os outros membros do periodo, principiemos pelo ultimo = He impiedade o barbaro gosto de ver padecer o outro. = Neste ponto he mais que impio o papel da Borbolêta, pois teve o barbaro gosto de ver sepultados na ignominia, feitos objecto da mófa publica, dos insultos dos libertinos, apupadas dos rapazes, e da gentalha os respeitaveis, e até agora mui dignos de louvor, os Padres Carmelitas Descalços, enchendo-os elle mesmo nos seus Diarios, tão repetidas vezes, de baldões, affrontas, ironías, sátyras picantes, e grandes escarcéos. E isto por que? Por que tinhão{13} preso hum Frade, cuja prisão, cárcere, e tractamento não só pintou com as mais negras côres, mas com as mais despregadas mentiras, e falsidades. Se pois o barbaro gosto de ver padecer a outro he impiedade, a que gráo não sóbe a Borbolêta, vendo padecer a tantos, sendo ella a causa, e o motivo principal do enxovalho nas Cidades, onde estes homens são conhecidos, e nos lugares aonde o não são? «Quod est causae est causa causati in eodem genere causae.» Este axioma da Philosophia antiga he ainda hoje verdadeirissimo, e assenta como chapéo de carneiro na cabeça da Borbolêta. Ainda mais: Se o barbaro gosto de ver padecer a outro, ainda que seja culpado, pois a humanidade pede a compaixão, he impiedade, que impiedade não he o ser o seu flagello, açoute, e verdugo? Por outra: se o barbaro gosto de ver padecer o culpado, ser causa e verdugo do seu padecimento, he grande impiedade, porque este mostra ter coração de fera, o ser causa de padecerem tantos innocentes, e ser elle mesmo o seu flagello, e verdugo he o «non plus ultra» da impiedade: o effeito tem necessaria connexão com a sua causa. A não ser a narração emphatica, mentirosa, e aturdidora do papel da Borbolêta, não serião os Padres enxovalhados em toda a parte, como forão. Pobres Padres! Se por impossivel o Soberano Congresso entregasse os papeis da causa á Borbolêta, e lhe cometesse a decisão aonde pararieis vós, quando, sem conhecimento de causa, sem informação, e sem exame já vos sentencea não menos que a ser enterrados vivos!!! Pela regra da moralidade cresce a{14} enormidade do delicto á medida da pessoa ultrajada, e os crimes multiplicão-se em numero quantos são os offendidos. Não fallo ainda do escandalo, e hum escandalo tão público, que vai chegando a toda a Europa, se não he já a todo o Mundo! Quem diria que hum animal de cornitos tão pequenos havia de fazer tantos estragos..?

Mas serão innocentes os Padres Carmelitas? Sim, cornigera Borbolêta, ao menos a maior parte, e isto ainda suppondo ficticio o roubo, como declaradamente apregoa a sua folha, e o que a seu tempo mostrarei falso. Ande agora comigo, Senhora Borbolêta, se he que póde, e vá discorrendo. Fr. Gabriel de Santa Thereza achava-se no carcere do Porto cumprindo huma sentença, e chama-se justa ou injusta huma sentenca, se o crime imputado he falso, ou verdadeiro: quando ella he injusta, os culpados na injustica são as testemunhas, que depozerão falso, ou o Juiz que falsificou os depoimentos, ou «contra allegata, et probata» assim mesmo sentenciou hum réo, que o não era: Suppondo por agora falso o roubo imputado a Fr. Gabriel, e a sentença injusta vem a recahir a culpa sobre os Padres existentes no Porto nesse tempo, os quaes deposerão contra elle, e os Juizes que sentencearão sem razão. Logo os que ahi não estavão, nem depozerão não entrão nesta conta; não entrão os que vivião n'outros Conventos, os do Brazil e Angolla, os empregados nas Missões, os que forão para a tal Ordem, e Professarão depois disso. Logo estes, que são os mais, são innocentes; e{15} deverão taõbem ser enterrados vivos? Acaso este crime será o peccado original, que se transmitte a todos? Acúa Sr.ª Borbolêta! tome alento que ainda vamos no principio da carreira. Sendo, como fica demonstrado, a maior parte innocente, ainda suppondo o roubo fingido, e a sentença injusta, segue-se legitimamente que he a ultima impiedade o querer que tantos innocentes sejão sepultados vivos. Tem-se visto muitas Testemunhas falsas, muitos Tribunaes corruptos, e tem-se dado muitas Sentenças injustas: isto he frequente no mundo, e o será sempre, a não crear Deos homens de outra raça, livres de paixões e prejuizos. Supponha-se toda, e qualquer Sociedade, todo e qualquer Governo, de necessidade hãode haver falhas, quebras, padrinhos, afilhados, valídos, interessados, hãode haver descuidos, preocupações, enganos, desejos de agradar para conseguir maior fortuna, e afinal a ambição, que em toda a parte cega os homens: esta a razão de se verem tantas testemunhas falsas, e tantas Sentenças injustas; entre estas a mais impia e injusta foi a de Pilatos contra Christo, pois o entregou á mórte, receoso de perder a Dignidade: mas depois desta não sei que haja outra mais injusta que a da Borbolêta contra os Frades Mariannos, pois, para conservar o caracter de maldizente, quer que todos elles sejão enterrados vivos, e ninguem dirá que hum tal sentimento posto em papeis publicos não seja a maior das impiedades. A Borbolêta não quererá que se arrasem todos os Tribunaes, nem que sejão queimados todos os Juizes, nem enterrados{16} vivos todos os que jurão em causas crimes, só precisamente porque tem havido Tribunaes injustos, máos Ministros, e testemunhas falsas; e hade querer acabar de todo com os Frades Carmelitas, só porque castigárão hum seu alumno, fosse elle culpado ou innocente? Soffre-se no mundo tanta injustiça, e não se hade perdoar a huma, quando appareça no Claustro? Dizem que he humanidade acudir pelo innocente castigado, e eu taõbem concordo neste principio; mas será rasoavel que, para libertar hum innocente, se condemnem, e enterrem vivos a mais de tresentos innocentes? Esta humanidade foi, he, e será sempre desconhecida no mundo, á excepção da Borbolêta. Mas deveras he innocente Fr. Grabriel, de quem tractâmos? Serão culpadas as testemunhas, e os seus Juizes? Eis-aqui a mina de carôço, onde a Borbolêta achou hum thesouro, com que enchêo a bolsa á custa de hum Povo crédulo, que devorou as suas pêtas embrulhadas em palavrinhas, bem como pirola dourada, que, contendo mortal veneno, engana os simples e pouco acautelados. A Borbolêta suppõem innocente o tal Fradepio, e não sei como o não canonisa de Santo, pois o tracta de Religioso, e Reverendissimo, sendo aliás hum Leigo com corôa aberta, e de casco mais rebelde, que o seixo ao fogo; e aos Padres suppõem todos culpados, e os tracta de machiaveis, hypocritas, tyrannos, e verdugos infernaes.... Por certo que Mafoma não fallou tão mal, nem disse tanto do toucinho! O Impio Luthero não blasfemou com mais impeto contra a Santa Igreja,{17} e contra o Papa, a quem chamava o Anti-Christo. Pouco importa, e de nada vale o dizer a Borbolêta que refere o que sabe por differentes vias sem animo de injuriar a Corporação Carmelitana Descalça, quando diz tão mal della, ou dos seus individuos, que he o mesmo, com tanto furor e acrimonia. Hum semelhante protesto, junto com o infame relatorio, he desfazer com os pés o que tinha feito com as mãos; huma refinada hypocrisia para melhor se fazer acreditar; huma impiedade solapada para córar o seu veneno: este modo de proceder chamou-se em outro tempo «protecção á Franceza.» Injuriar publicamente hum homem, (muito mais huma Corporação inteira) imputar-lhe falsamente grandes crimes, e divulgalos por toda a parte, meter-lhe em fim a espada até aos copos, continuando a dar-lhe estocadas mortaes, e protestar ao mesmo tempo que não tem animo de o offender... quem não vê que isto he estupidez? e, se não quer que seja assim, então vem a ser o que eu já disse = o non plus ultra = da impiedade. Mas talvez que a Borbolêta admitta a existencia do peccado philosophico, e, a ser assim, eu o desculpo pela compaixão, que tenho da sua cegueira.

He certo, torno a repetir, que a Borbolêta suppõe innocente o tal Fradepio, e tomo a meu cargo mostrar-lhe para o Correio, em como he culpado, e mui culpado. Na terra onde vivo tenho participações as mais veridicas sobre este ponto, e protesto, e juro a Deos (o caso pede que se jure para que o mundo conheça a verdade) ser mais fiel e sincero que a Borbolêta{18} em relatar os factos. Antes de os expôr convem dar huma noção exacta do caracter de Fr. Gabriel de Santa Theresa. (perdoem-me os Padres Carmelitas se mostrar ao mundo os crimes de hum seu Irmão) Julgo que a sua Religião nada perde com isto, antes a meu ver se acredita por isso mesmo, que castigou como devia os seus delictos, nem offendo a caridade mostrando os crimes de hum Frade indigno até de estar na Sociedade dos homens, e que nenhum direito tem já á sua honra. Para o Correio porei este caso em toda a luz possivel, para vêr se queimamos a Borbolêta, ou ella mesma se queima na sua impiedade. Tenha paciencia Senhor Redactor em aturar este, que he sem refolho.

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.{19}

TERCEIRA CARTA.