Segunda feira 29 de Outubro.
«Impius facit opus instabile»
Senhor Redactor, vou continuando a primeira parte do meu Discurso, ou do meu Sermão: ficou elle substancialmente nas duas interrogações; 1.ª se Fr. Gabriel he innocente? 2.ª se as testemunhas, que deposérão na devassa, e os Juizes, que dérão a Sentença, serão culpados? Da verdade de huma destas proposições segue-se necessariamente a falsidade da outra: Logo, se o primeiro for culpado, devemos concluir de certo que os segundos são innocentes, e impio o tal papel da Borbolêta; pois a torto, e a travez quer que os Padres sejão «barbaros, crueis, tyrannos,» e por consequencia merecedores de mais alguma cousa, que serem enterrados vivos. Entremos primeiro na descripção de Fr. Gabriel, ou do seu caracter, que prometti, e eu a dou em tudo confórme ás participacões delle, nem mais, nem menos. «Agoente agora hum pouco, Sr. Borbolêta, e venha vindo a passo.» Fr. Gabriel de Santa Theresa, de idade de 53, a 54 annos, pouco depois de professo no Convento do Porto, e logo no principio do seu Coristado mostrou huma indole tal, que nunca a sua Religião se servio delle, nem o promovêo{20} a Ordem alguma, por não dar, nem sequer, esperanças para o desempenho do menor gráo do Sacerdocio. Já no tempo de Noviço as deu bem fracas de cumprir os devêres da profissão, e foi admittido a ella, presumindo-se que com a frequencia dos Exercicios Religiosos, bons exemplos, exhortações, e com o tempo em fim se ligaria aos seus devêres; mas enganárão-se os bons Padres, porque = de pequeno verás o Boi que terás. = Suas propenções, falta d'amor á observancia, de sentimentos religiosos, e até christãos, erão taes que, por exercicio á Caridade, e respeito á sua Corporação, não os especifico. Repetidas vezes arguio, e castigado de mil infracções do que tinha professado, seu genio inquieto, seu coração endocil tudo atropelava, zombava de tudo. Seu entendimento rombo, e ao mesmo tempo manhoso, só inclinado ás cousas da terra o affoutou a pedir aos Prelados que, da profissão, que fizéra para Religioso do Côro, o passassem para a de Leigo. «Toupeira nos sentimentos quiz trocar os olhos pelo rabo, estimando mais ser bicho de cosinha, do que pegar no Breviario.» Que tal he o R.mo da Borbolêta!!! Em varios tempos, e por varias vezes mostrou o «séstro» de rapinante, não sei porque infeliz e funesto fado! Em 1804 foi convencido de haver tirado huns cordões d'ouro, e algumas peças á tal Senhora, a quem chama a Borbolêta, como de mófa, = Rica Proprietaria; e, de mais a mais, de abrir com gasua, ou chave falsa os mealheiros, ou caixinhas, em que os Fieis devotos deitão as suas esmolas aos Santos: (talvez julgasse erradamente{21} lhe competia este espolio, por ser elle mais santo, ao menos na razão de simples) Convencido deste crime foi então prezo, e do tempo da prizão nada nada me informão de positivo. Não se emendou com esta pena a tal «ave de rapina:» deu traças a huma chave, a que chamão mestra, a qual abre as portas das Cellas todas, e em horas, que lá sabia, hia sisando o que achava bem guardado: houve alguns queixosos, e entre elles o Comprador da Communidade, que se via afflicto, por lhe faltar muitas vezes o dinheiro da Cella, e a Cella sempre fechada. Depois de longo tempo, desconfiado do tal merlo, armou-lhe a ratoeira, e logo á primeira vez cahio nella a «Ratasana.» He galante esta historia, e mostra bem quanto são finos os taes Fradinhos. Hum dia fingio o Comprador sahir para fóra, e no tempo de Vesperas foi ao Côro tomar a benção ao Prelado; mas, em lugar de sahir, foi meter-se em huma Cella fronteira á sua, e pôz-se á espreita, tendo avisado a não sei quantos, que perto e disfarçados acudissem á primeira voz. Serião três horas pouco mais ou menos, eis que, cantando ao som de Esgueira, ou Borda-d'agoa = trai, li, la-ro, veio correndo o Dormitorio o Reverendissimo Fr. Gabriel, que suppunha fóra o Comprador, e os demais na Cerca divertindo-se: feitas as tentativas para que ninguem o visse metêo a chave, abrio a porta, e entrou affouto deixando a tal chave na fechadura; fatal descuido! Sahe depressa como galgo sobre lebre o Comprador, juntão-se os outros, que pilhárão o Reverendissimo mechendo, se não foi já embolçando algum dinheiro.{22} Eis-aqui o innocente, que tanta piedade merece á Borbolêta! Deos por sua alta piedade lhe encha a casa dellas, ainda que [ persuado-me ] não terão muito que levar. Castigado novamente o Reverendissimo teve a soffrer o carcere, e tãobem não me dizem por quanto tempo, mas sim que o fôra por Sentença. Estes Padres tem lá suas Leis, e Judicatura particular, e por ella costumão processar os Réos; e, a fallar verdade, fazem bem; porque aonde não ha castigo ha huma tropa de levantados, e cada qual faz o que quer. O homem de honra dirige-se pela nobreza dos sentimentos, que o animão, e quem a não tem atropella tudo, e para estes he necessario aguilhão, e hum chusso. Na colisão de dous Governos hum molle, e outro rijo deve preferir-se este ao molle; porque no rijo o homem de bem nada teme, porque obra por decóro, e honra propria e o malévolo contem-se pelo temor de que o castiguem: pelo contrario no Governo molle o mesmo homem de honra muitas vezes se relaxa, e o máo que neste estado não teme o castigo, faz-se pessimo, audaz, e insolente. A vara, e o freio doma os cavallos, e para os homens máos são necessarios os castigos: mas a Borbolêta he tão boa que não quer hajão máos no mundo, nem que elles se castiguem; os bons isso sim, esses sejão sepultados vivos, e ainda alguma cousa mais. Eis-aqui huma politica estranha, ou huma piedade verdadeiramente impia; e, a valer esta regra, tem de viver muitos seculos a Borbolêta, ainda que o seu sustento sejão «acelgas, e beldroegas.» Na sua linguagem{23} he Fr. Gabriel hum infeliz barbaramente encarcerado, e os Padres são huns hypocritas, crueis, solapados, huns verdugos, e verdugos infernaes. «Apague! Este rasgo de eloquencia pedantesca escandalisa, ainda que seja hum Fariseo. He huma verdade, pois o diz Espirito Santo [ por ser de tal author julgo o não negará a Borbolêta, ainda que tem cabedal para muito mais ] diz o Espirito Santo, que a boca falla da abundancia do coração, e quem lança taes fezes pela boca [ digo eu ] he sinal que foi meter a lingua em parte bem nojenta. Acho-me tãobem agora com vagar, e por isso contarei a minha anecdota.» Ahi vai, acredite quem quizer, e quem não quizer não acredite. Em certa terra deste Reino entrou hum homem alta noite em huma casa a não sei que pertenção; porem sentido pelo dono, e não podendo escapar-lhe d'outro modo, descêo de hum golpe por hum buraco a huma loja, onde infelizmente se enterrou até á cinta: o pobre miseravel forcejando como burro em atoleiro, pôde escapar á inundação, e aos fios da espada, com que o outro o perseguia: atravessou algumas ruas, e para mais desgraça veio dar aonde estava huma sentinella; gritou este como era de costume = quem vem lá para á guarda? = mas o tal homem fez-se mouta, e com pés de lã deu mais hum passo adiante porem o Sentinella gritou mais alto = quem vem lá para á guarda? Então o miseravel, vendo que o voltar atraz era cahir nas mãos do inimigo, e que os gritos de sentinella o descobrião, disse em voz submissa = he o diabo{24} carregado d'esterco, = (por decencia não se diz a palavra) ao que respondêo o Sentinella, = passe de largo, que o cheiro bem o mostra. = Tornemos agora ao Reverendissimo Fr. Gabriel, [dar-lhe-hei sempre este titulo que de tão boa mente lhe concede a Borbolêta] e ao facto de 1813, que ella conta em ar dogmatico, e decisivo. Muito perdêo o Patriarcha Grego em não ter ao pé de si esta rica Borbolêta! passaria por hum homem inspirado, e a força da sua loquella faria scismatico o mais emperrado Turco. Em 1813, no dia 14 de Junho ás 5 horas da manhã, appareceo roubada a Senhora da porta, como diz a Borbolêta, mas não diz tudo; he velhaca, ou não teve informações exactas, e escrevêo ao Deos-dará: appareceo tãobem roubada a Senhora do Altar Mór, Calices, Custodia, e demais prata da Sacristia, e até a Patena dos Santos Oleos, que estava fechada n'hum cantinho.... Foi esta apparição, de menos, da fórma que vou dizer, e do modo que me informão pessoas de todo o credito, que a presenciárão ellas mesmas. Os Padres Carmelitas Descalços tem por instituto, o levantarem-se em todo o anno hum pouco antes das 5 horas da manhã; e no tempo que toca o sino juntão-se no Côro para fazerem Oração. Costumão nas terras grandes descer nesse tempo alguns Padres a dizer Missa ao Povo, que no Porto he sempre em quantidade: abrio o Porteiro a Igreja, e o Sacristão a porta da Sacristia, e eis-aqui o pasmo, e o assombro em huma e outra parte ao mesmo tempo... Os Padres não achão Calices, e o Povo vê o Nixo{25} da Senhora aberto, o Menino aos pés da Mãi, e ambos despojados de corôas, joias, e dinheiro, e tãobem a Senhora, e Menino do Altar Mór sem as suas corôas. Armou-se tal barulho na Igreja, que os Padres, deixando a Oração, correrão á grade do Côro para saberem a causa do motim: então hum delles [dizem-me que se chama Fr. Manoel de S. Lourenço, e que ainda móra no dito Convento] perguntou ao visinho, que era o Reverendissimo Fr. Gabriel--isto que he? que succedeo?.. He disse o tal Reverendissimo, he que roubárão a Igreja, e Sacristia. Como assim, lhe replicou o Padre, se a porta da Sacristia he páo ferro, e só á força de machados, e com muito estrondo he que podia arrombar-se? Não foi por essa porta, respondeo o Reverendissimo, forão pela escada da Sacristia, arrombárão a porta do Presbyterio, e dahi forão pela Capella do Sacramento á Sacristia. N. B. Os Padres, regularmente recolhem-se ás Cellas das déz ás onze horas da noite, e levantão-se para o Côro ás cinco, como já disse: a Communidade estava então no Côro, e lá estava tãobem o Reverendissimo; os demais ignoravão o que se passava, e o que era, e o Reverendissimo Fr. Gabriel, sem sahir do Côro, já sabia não só do roubo, mas de tão miudas circunstancias como = o terem ido pela escada da Sacristia, o arrombamento da porta do Presbyterio, a passagem á Capella do Sacramento &c. &c. Se não foi elle o ladrão, parece que andou com elles; ou, aliás, advinhou. Seria isto porque estes Padres tem por brasão{26} o ser filhos dos Profetas, e Fr. Gabriel, entrando nesta successão por artes de «berliques berloques,» consultou alguma bruxa, que tendo o espirito d'Apollo Pythio, lhe revelou de noite tantos segredos; pois dizem [valha a verdade] que os espectros costumão apparecer, e fallar huns aos outros. Conhecido o furto, (digo a verdade, e só esta he que he verdade, diga quantas mentiras quizer a Borbolêta) desconfiárão os Padres dos Soldados, pois, sendo feito o roubo pelo interior da Casa; tinhão motivos racionaveis para isto. Chamárão o Sargento, perguntárão aos Guardas da Portaria se virão entrar, ou sahir alguem em toda a noite; e, respondido que ninguem entrára nem sahíra, dous Padres com o dito Sargento derão huma busca ligeira ás Cellas, onde os Soldados estavâo aquartelados, e nada apparecêo: foi busca ligeira, por que huma grande Custodia, sete, ou oito Calices, Patenas, Corôas, &c. &c. não erão trastes, que se metessem no bolço, ou na patrona. Nessa manhã veio ao Convento o Chanceller, a quem o Prior foi rogar para isso, o qual, examinando o lugar, por onde se fez o roubo, os sitios onde as cousas estavão, e demais circunstancias, disse por fim ao Prior, e Padres, que o acompanhavão--Padre Prior, tenho experiencia porque tracto de semelhantes causas ha muitos annos; pelo que observo o furto foi feito por pessoa, que sabia muito dos escaninhos, sitios, chaves, e lugares: veja se tem em casa alguem capaz disto, e não se escandalize, porque taõbem{27} no Apostolado houve hum Judas. Ora este sim, que foi Profeta! Nós veremos como elle advinhou. Para o Correio, Senhor Redactor, continuarei o meu aranzel, assim como continuo a ser
Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.{28}
CARTA IV.
«Impietas impii erit super eum.»
Senhor Redactor, já lhe remetti a descripção do caracter de Fr. Gabriel, e o modo como se fez o furto, e ficámos em ver como advinhou, sem ser bruxo, o Illustre Chanceller. A pezar do seu pronostico tão claro e decisivo, nem por isso se declárão os Padres contra o Reverendissimo, ainda que lá no coração muitos o suspeitarião: assim mesmo, apenas hum, ou dois por entre dentes disserão que desconfiavão delle; porem a perturbação, a mágoa, e o sentimento em todos era tal, que os não deixava discorrer: andavão como attónitos, e assombrados, e foi tão grande a pena, que o pobre do Prior em três dias deu á casca, isto he, morreo de apaixonado. Descobrio-se o furto nesse mesmo dia, ou no seguinte, e foi da maneira que vou contar, nem mais nem menos. Recolhidos depois de cea os Religiosos, erão pouco mais de onze horas, quando vem á Cella do Superior aquelle sujeitinho, que tinha pilhado da outra vez a «Ratasana» era o mesmo Comprador, de que acima fallámos, e lhe{29} disse desta maneira «Padre Superior, eu já estava deitado, e não posso dormir, nem descançar com a lembrança de que o furto está em casa, e de que o ladrão de certo, ao que me parece, foi Fr. Gabriel; (perdoe que me esquecêo agora o Reverendissimo, fique para outra vez) lembro-me que por cima da abobada da Igreja ao lado da Epistola, e sobre o Altar da Santa Theresa ha hum profundo escondrijo, onde escapárão muitas cousas aos Francezes [não escapou depois disso huma mala, e parece que o Reverendissimo lhe deitou a fatexa de cinco pontas, pois me dizem anda appensa aos Autos huma carta delle a certo amigo da Cidade, em que o avisa tenha muito cuidado na mala, e a não dê a ninguem para o não perderem &c.] Certamente ahi está o roubo: venha comigo, e vamos ver.» Foi com elle outro Religioso, e mesmo, lá mesmo no tal sitio mesmo, lá estava, mas não tudo: Corrêo logo com tal alvoroço o tal Comprador, que, sendo alta noite, e tempo de silencio assim mesmo gritou nos Dormitorios em altas vozes = Padre Superior, apparecêo; cá está; venha, venha que appareceu.... Ao estrondo destas vozes levantou-se o Superior á pressa meio vestido; levantárão-se os demais como em tumultos e todos, á maneira de quem acode ao fogo, correndo cada qual mais depressa, se dirigião ao sitio para ver o tal «achado.» Todo este barulho passou pela porta do Reverendissimo, e á porta delle he que gritou o Comprador; mas deixou-se ficar quietinho, e estirado{30} como bom cação; talvez tivesse escrúpulo de quebrantar o silencio, porque foi sempre mui observante neste ponto: póde ser que nada disto o acordasse; mas, a ser assim, hum sono tão profundo indica bem a necessidade de descanço; elle o precisava, pois tinha perdido a noite antecedente. Cumpre notar que até os Padres mais velhos, e venerandos se levantárão para assistir ao acto da «achada,» e o Reverendissimo, e venerabundo Fr. Gabriel devia ficar-se pelo pouco, ou nenhum interesse, que lhe resultava de hum roubo tão consideravel, e que tanta magoa causou aos seus Irmãos. Apparecêrão Calices, Patenas, Custodia, a pequena Alampada, e a Corôa grande, mas não as colherinhas dos Calices, joias, dinheiro, e tudo o mais que não era volumoso. Depois desta descoberta encaminhou-se o Prior, e Padres do Governo á Cella do Reverendissimo Gabriel, e o forão condusindo para outra, que tinha grades, servio, e serve algumas vezes de hospedaria: aqui o deixárão ficar em quanto elle não teve arrombados os ferros, porque então foi preciso muda-lo para outra Cella taõbem de grades, e, se vê já de forro. Metido nesta Cella deu traças a fugir, e para isto furou a abobada, o que deu motivo a fazer-se-lhe hum segundo solho, ou pavimento sobre o primeiro. Ao Religioso, que o servia, em quem achou alguma confiança, e demasiada benevolencia, deu 2400 para que lhe comprasse huma lima surda, ou serra d'asso, afim de cortar os ferros da janella, e por-se ao fresco; pedio{31} mais ao dito Padre lhe levasse hum Gabinardo, que tinha em certo sitio, e huma corda a qual lhe disse a tinha escondida detraz dos folles do Orgão, e lá se achou. «Estes trastes denotão que elle costumava fazer suas sortidas; ou que já os tinha de prevenção para o que désse, e viesse.» Nada se achou na Cella do Reverendissimo concernente ao furto, nem era da esperar, porque já estava destro; com tudo, depois de alguns dias, lhe mandárão despisse toda a roupa, e apparecêo cosida na fralda da camisa a quantia de 12$ e tantos reis. Tãobem isto, dirá a Borbolêta, que he fingidi? Estes Padres são mui finos, e certamente por alguma nova magica forão-lhe lá coser o dinheiro, mas este remendo botado assim he mal cosido. Nada apparecêo até ao dia de hoje, de cordões, joias, dinheiro, «que foi em quantidade o que levou da gaveta da Sacristia,» e d'outras miudesas, e he crivel, que tudo enterrasse na Cerca, e ha razão de o desconfiar; por quanto, propondo o Reverendissimo ao Padre, que o servia, os intentos de fugir pela janella para a Cerca, este lhe aconselhava o não fizesse por esse lado; que de noite, arrombando a delgada taipa, que divide a Cella, podia escapar-se muito bem, pois a Portaria estava aberta, e os Soldados o deixarião ir livremente, dizendo-lhes que era Religioso; a estes e outros conselhos repugnava sempre o Reverendissimo, teimando sahir pela janella, e pela Cerca; ora isto [dizem-me] são motivos para desconfiar, de que as joias, dinheiro{32} &c. estão na Cerca enterradas, e que elle os queria levar comsigo quando fugisse; por quanto, perdida esta occasião, não lhe ficava outra para as levar sem muito risco, e grande perigo de ser pilhado, se voltasse. Não damos porem como certo o enterramento, para sermos em tudo sinceros, e não cahir nos absurdos da Borbolêta: o facto he veridico; mas, se estes erão os seus intentos. Deos o sabe, e cada qual ajuize como quizer.
Foi do modo que fica exposto o furto, e o seu achado, ao que se seguio depois huma devassa, que lá fizerão os Padres, conforme determinão seus Estatutos, e o que depozerão as testemunhas nem o sei, nem se me communica: Sei sim que foi sentenciado, e que a norma da Sentença foi dada por hum Juris-consulto Secular á vista dos Autos; homem tal que, disse ao Prior o honrado Juiz do Crime no dia 14 de Outubro, era a melhor cousa que tinha Portugal em materias criminaes: [se mentio por alma lhe preste, pois agora mente-se muito, e custa saber de que parte está a verdade.] Sendo pois testemunhas de probidade as que depozérão, porque forão Religiosos, e não se póde dizer sem blasfemea, que todos jurassem falso, e sendo a Sentença dictada por hum Ministro desinteressado, e sem suspeita, segue-se legitimamente que o Reverendissimo Fr. Gabriel foi «irté» pronunciado criminoso no furto, e por consequencia igualmente legitima, os demais Religiosos innocentes. Ora,{33} e deverão elles, por castigarem o Reverendissimo depois de sentenciado, ir todos lá para essa Ilha dos mortos, ou dos Lagartos, e serem sepultados vivos? Admiro a grande caridade para soltar hum preso, e ao mesmo tempo o esforço, e energia em enterrar os sôltos. Quem não vê que isto he huma grande impiedade?..
Apesar de não saber o que as testemunhas deposerão; assim mesmo não sou temerario em chamar criminoso ao Reverendissimo, porque para isto basta saber que foi juridicamente sentenceado: mas, ainda quando o não fosse, appello desde já para o Juizo de todo o mundo racional, [fica excluida a Borbolêta, porquo he animal sem razão] e diga elle se tantos, e tão grandes indicios, como os expostos, não são prova prudente, ainda que não infallivel, de que Fr. Gabriel foi o auctor do roubo? Saber o modo, as circunstancias, e todos os abanicos do furto, quando os mais ignoravão ainda o que se passava! isto só quem fez o roubo, ou assistio a elle; e neste caso tão ladrão he o que furta como o que consente, e para ser de outra maneira he muito advinhar: além de que, para se fazer este roubo, era necessario estar dentro de casa, descer pela escada interior do Convento, saber da porta do Presbyterio, da passagem da porta do Sacramento para a Sacristia e ahi saber das chaves para abrir Armarios, caixões, gavetas, e saber em fim os lugares, em que paravão as cousas, e conduzilas pelo interior do Convento, e saber do escondrijo. E então não foi o Reverendissimo Fr. Gabriel quem fez o roubo? Eis-aqui o que disse{34} hum rústico = Ladrão he elle, assim o eu fôra. = Além disto he certa a regra do Cêsteiro, «quem faz hum cesto faz hum cento;» quero dizer, tendo sido o Reverendissimo convencido de dous roubos, quasi da mesma natureza, de hum Relogio, que safou a outro, e que, depois de o negar, lhe achárão na Cella, e de outras minudencias. &c. &c. que devemos nós suppôr? A regra de Direito presume sempre máo aquelle, que o foi huma só vez, «Semel malus, semper præsumitur malus» e não devemos nós suppôr máo aquelle, que o foi tantas vezes? Não o sería; o que por huma excepção extraordinaria, e fóra de toda a regra póde acontecer; mas para que tinha elle o Gabinardo? Sería para representar na Opera? Galante figura! Mas, a não ser isto, para que era a corda? Seria para se enforcar quando se visse atacado? Ainda que he estúpido no ultimo ponto não tem semelhantes sentimentos. Agora por tudo isto... Já me esquecia o dinheiro! Sim, o dinheiro: se era delle, para que o foi cozer em parte tão secreta? Alem de que, se era inocente e tão santinho, como o suppõe a Borbolêta, para que intentou tantas vezes, e com tanto perigo a fugida? Quem não deve não teme. Para que em fim assignou voluntariamente a Sentença, acceitando-a, quando aliás diante de testemunhas lhe disse o Prelado, intimando-lha, que a aggravasse, ou appelasse para Tribunal. Superior, pois tinha este recurso, e se lhe concedia de boa mente? Se he certo o adagio = quem cala consente, muito mais{35} certo he, quem subscreve de proprio punho sem violencia. Por tudo isto... Agora venha cá, Senhora Borbolêta, que lhe quero depennar as azas: Vê tudo isto! Olhe bem! Vê!.. esta narração desde o começo até ao fim he o facto viridico e tão certo, como he certo estar vossa mercê pintada no seu papel digo por causa de equivocação, gravada no seu papel. Ora, diga-me, não lhe mostrei que a maior parte dos Padres Carmelitas Descalços era innocente, pois só os do Porto he que entrárão na festa de Fr. Gabriel? Não vio depois que o erão todos, pois pelos factos, e provas de Direito se mostra criminoso o Reverendissimo seu apaixonado? E não será impiedadade o querer que tantos innocentes sejão enterrados vivos? Não o he ainda maior o desejar-lhes ainda maior castigo? Tanta gente sepultada viva! Póde haver pena maior? Não he o superlativo da impiedade o fazer acreditar ao Público tão grandes aleives, dos quaes veio a seguir-se huma infamia pública contra tantos, e tão bons Religiosos? Não foi o seu papel huma e outra vez impresso com as mesmas fanfarronadas, e de quando em quando certas pancadinhas a causa delles serem apupados publicamente, insultados pelos rapazes, garotos, lacaios, e regateiras; nas ruas, nas praças, e nas casas particulares; feitos a fabula não só do Povo do Porto, que sempre he Povo, ainda que vossa mercê lhe chama «comedido, pacato» &c. &c. mas de todas as terras do Reino, e fóra delle? Não está vossa mercê obrigada a restituir o credito a estes homens tão injustamente roubados, e de mais a mais o dinheiro,{36} que levou tão mal, porca, e indevidamente pejo seu papel, cheio de mentiras, aleives, e impiedades? Olhe, dou-lhe hum conselho, se quer salvar-se vá para a Thebaida fazer penitencia, ou ao menos meta-se leigo na Cartuxa: estou certo que isto nem lhe faz móssas nem escrupulo: como v. m. metêo dinheiro na aljava, isso he o que lhe interessa, lá do mais quem sabe... Mas, fallando agora nas cousas da terra, diga-me, merecerá o seu papel algum credito de hoje em diante? Não he digno de que todos o detestem, e aborreção? Não he assim mesmo verdade, que «semel mal semper præsumitur malus;» ou, aliás, a regra do cesteiro? Será injustiça quando se lhe appliquem estas mesmas regras? Não tem o seu papel merecimentos de sobejo para isso? Vai ao chão com tanto peso, Senhora Borbolêta? Deita sangue porque lhe puxei as azas? Não o póde vedar? Pois agora morra com esta sangria, e, se não quer, não grite tão alto, ou vá esconder-se onde nunca mais appareça diante de gente, se he que lhe restão ainda sentimentos: Mas assento que o não fará, porque me lembro agora do que succedeo em caso identico a hum Gallego descarado. Vou contar-lho, porque vem aqui muito a proposito. Convencido de certo crime o tal Gallego levou, salvo seja, em tal parte hum par de açoutes, e tres voltas em roda da forca; e, sendo posto em liberdade, logo immediatamente pegou na tranca, e no chouriço e poz-se a ganhar a vida como d'antes: hum companheiro no officio, porem de melhores sentimentos,{37} apenas o vê deste feitio lhe disse estimulado = homem de Deos, ou do diabo, e tu não tens vergonha: He possivel que, levando hontem açoutes por essas Ruas, e, costeando a forca, andes hoje em público por esse modo? Se tal me succedêra fugia para onde ninguem me conhecesse; metia a cara n'hum folle, e andaria assim mascarado toda a minha vida: por Deos: que ao menos largava o officio para não envergonhar os outros = ao que respondeo o desavergonhado = Pois bem está; tu fazias isso, e eu não: são genios, e a mim que mal me vai? Os açoutes não me dóem, aqui poucos me conhecem, e eu ganho dinheiro....
Senhor Redactor, como Escaravelho fui indo devagarinho, e a passo lento para pilhar de geito a Borbolêta: encontrei-a no meu quintal chupando as couves para depois deixar ficar a semente das lagartinhas, que destróem as hortas, e investi com ella tão animoso como o General Chixagophe com os seus Cossacos sobre os Francezes, e a primeira descarga foi huma torquezada no bandulho, que lhe fez sahir as tripas fóra, e por isso creio morrerá cedo das feridas. He verdade que este animalêjo de alado passa a bicho, e renasce depois de morto; mas eu hei de pôr sentinellas, e guardas avançadas; e, alem do Exercito que está no campo entrincheirado, tenho hum grande corpo de reserva: he por isto que estou sempre certo da victoria. Bem sei eu que para tão insignificante inimigo não era mister nem tanta gente, nem tanto barulho; porem a Borbolêta, tendo algum{38} espirito sem ter forças, faz sempre o que os fracos nestes lances, isto he, chama para seu lado valentões basofias, que animados de hum espirito ainda mais bravo procurão despica-la. «Assumit spiritus nequiores se.» Eu irei sosinho á batalha, como S. Martinho, sem espada, nem escudo: tenho hum bom Santo Lenho, e hum Breve de boa marca, e com estas insignias lhes farei os Exorcismos. Veremos fugir estes espiritos malignos, e o seu ultimo estado será mais infeliz, que o primeiro. Por fim, Senhor Redactor, he tempo de concluir: parece-me que mostrei soffrivelmente a primeira proposição, que prometti sobre o papel da Borbolêta; isto he, a sua Impiedade, e que nella se verificão á letra os textos, 1.º «Impius facit opus instabile.» Prover. 11. v. 18. 2.º «Impietas impei erit super eum» Ezech. 18. v. 20. Ponha esta fazenda em Praça pública, que não deixará de haver bastantes compradores, e, ainda que he fabricada cá no Reino, he da ultima moda, e de que muito gostão os pataratas. Para o Correio remetterei mais, pois tenho na minha loja grandissima sortimento. Protesto-lhe, que ainda sou devéras, e serei com a mesma efficacia «usque ad mortem.»