Áquelle que jurou assassinar-me

Meu senhor—Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir, consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas Farpas o monarcha sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz? Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

Omitto n'este extracto o dia e o mez—os quaes o meu amigo fixa com a mais amavel pontualidade—porque, sendo um negocio inteiramente particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem de occupar-se do caso.

Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ... Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

Meu amigo—Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente, sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha opinião:

Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como o meu amigo denota ser, a consumir a sua fortuna toda á espera do momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no Brazil—onde custa tudo tão caro!—o barato que ha de sair ao meu amigo o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de barateza que nem costumo levar nada—por me achar em casa!

Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem ordinariamente comsigo.

Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final fecha o discurso.