Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram, violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln e o jornalista Courrier.
Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que, dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,—tão correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem felizes,—irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e implacaveis da desgraça!
No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia, affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso, sentia a displicencia, a melancholia.
Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
Vermes!
O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu começava a nutrir—de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios aziaticos, que o que eu tenho é—o meu amigo. Considero-o já como uma parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos mezes, e todavia—como é commodo isto!—o meu amigo não me obriga a tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o pronto allivio nem lhe ministro aguas de Vidago!
E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes—bastante para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens, que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da terra, que me não expulsarão nunca—elles!—da sua convivencia gulosa, mas discreta.