«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu para o seculo attonito uma torcida,—e a luz foi feita. Os homens, os principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes—ai de nós!—o empanaram e entenebreceram, é porque elles—o discreto Pickuick e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se detinham,—geniaes, assombrosos e tremendos—para se espevitarem.»
O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos, teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois varões extraordinarios!
No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:—Barros ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o barrete de algodão branco—casto symbolo dos sonhos immaculados—e a nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos—outrora tão puros!—quando se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma correspondencia que o Commercio do Porto se resignou a publicar nas suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do solo e dizia-se em um documento hispanhol—a Peninsula Iberica, ao que Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não! nunca!»
Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á geographia—e á canalha!
Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de pecego. Mas peninsula!.. Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó perra vil!
E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica, os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama, a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte—de ôlho de perdiz!