Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos e quinhentos mil réis!


Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento portuguez quasi tudo o que existe é erro.

Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim hortelões e jardineiros.

Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,—as noções mais essenciaes á vida.

Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem rapazes em marcha faz d'elles cem homens.

Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento, levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida pelos seus similhantes.

Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente, deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim um emprego elevado e digno do seu tempo.

Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas, embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.

Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser obrigados a rachar lenha ou a britar pedra—os exercicios mais saudaveis para os musculos de quem está parado.