O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota alienado,—como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial para o receber—é recolhido na cadeia.
Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do estado da civilisação na sua patria.
Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.
Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha resumida nas seguintes datas que extrahimos do Livro Branco: Em 7 de junho de 1859—começa a negociação o encarregado de negocios interino no Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno—prosegue o sr. Mathias de Carvalho. Em dezembro de 1871—principia negociações para um egual tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de 1872—terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872—é assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção postal, nem a convenção litteraria!
Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho—a sr.ª Emilia Adelaide.
Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado Duas palavras aos leitores das Farpas, aos leitores das Farpas, e ao mundo, o seguinte:
1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes, entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, Tschudi e Avé-Lalemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado Duas palavras aos leitores das Farpas, por um patriota brazileiro ... e anonymo!
2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos syllabus do Catete ou das bulas da rua do Ouvidor?!