Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.
N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia. Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos. Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria—uma visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo, marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes, decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do Malade imaginaire, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena: ao lado do aphorismo, Medicamen clister nobile est.
E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão os principios politicos de suas excellencias os executores testamentarios da fallecida soberana.
Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....
Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam saber que nunca se abrem as caixas reservadas da toilette de uma senhora.
Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias, que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens—a constipação intestinal dos principes!
O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz fallecida.
O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o valor de cada coisa.
S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!