Ha pequenas differenças:
O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a portadora da emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres sociaes.
O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro inquieto de Alcantara.
O anjo caminha gravemente—enfunado, crespo de folhos e de rendas, como um peru armado—a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica Alumnos de Minerva, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o mundo velho.
A deusa vem ao collo de um companheiro membro da Fraternidade Operaria e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais convicto e consciencioso hymno da carta, atraz da angelica vergontea de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence, mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na futura organisação social.
O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.
A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação e de erros de prosodia.
O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.
Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.