Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

Não será tambem com a sua oradora de nove annos, inspirada pela razão e pela justiça, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

O trabalho—bem o sabemos—é uma coisa augusta e sagrada. O commercio—desculpem-nos os senhores proletarios—é tão sagrado como o trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis. Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma boneca de vitrine e encarregando o Diario Illustrado de lh'a apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha, para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo Pensamento Social, orgão das classes operarias.


Já que fallamos no Pensamento Social notemos que nem sempre nos parece perfeitamente logico este jornal.

Succede que elle guerreia o burguez, o infame burguez, e não cessa nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada temos que objectar.

Quando se deu, porém, a grève dos surradores, succedeu o seguinte:

Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de ceder á grève ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas, associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em fabrica, levantar os cortumes.

Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia dos patrões curtidores o que o Pensamento Social escolheu para os flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o Pensamento Social não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.