E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!


Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto, firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que Michelet chama a indigente correcção de Malherbe: tem portanto as condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue, nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.

Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica da revolução, que essas conferencias propagavam.

Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «La légalité nous tue».

Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as caixas economicas, escondendo que a questão de coarctar a miseria não é de estabelecer o mealheiro mas sim de crear o trabalho.

Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra, justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o pensamento ou de disfarçar a verdade.


No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios, nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz, no bem estar e na virtude,—n'este momento supremo, um dos mais graves em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos—, um philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno, lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em Cartago e Attila nas margens do Danubio.