Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido, desalentado ...

D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os annos nem os desgostos justificam?

Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada. Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria. «Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda, e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica: «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo—por ter chegado!

Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr. Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.

Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em substituição da vida artistica.

Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A padecer o que? Esta molestia:—a nostalgia da arte.


A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é então uma lesão profunda e mortal.

O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo, publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes, amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais póde sem perigo retirar-se d'esse meio.

Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle, elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa, immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam, tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.