A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: informando-se;—é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve hoje—notae-o bem—é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente—o cano.
Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções baseadas em ideas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é substituido pelo mot d'ordre.
Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não tem um partido, que não tem um centro, que não tem um club, que não tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual, isto é—livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado á casa de correcção installada no convento das Monicas.
Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é: demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de analyse. Porque nós—talvez o não tenhaes comprehendido bem—nós não somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a sua grande arma contra os tyrannos.
O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.
De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso. Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no nariz.