Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e são victimas do seu proprio acto. Em todo o statu quo toda a idéa nova é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo projectil inimigo.
Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os meios que produzam este resultado:—a consolidação do que está.
É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais adequado e mais proficuo.
Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes, controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos, com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!
Que aconteceu, porém, em vez d'isso?
Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela bocca dos seus oradores.
O sr. Osorio de Vasconcellos disse:—«Partiu de alto a iniciativa; partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é geral (apoiados) do soffrimento que é grande; das amarguras que são immensas ... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da caridade ... Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc., etc.»
O sr. Barros e Cunha:—«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões, e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo do seu reconhecimento.»
O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)—«Trago tambem aqui uma proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio. Tenho concluido.»
E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade, para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento popular!