A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de gratidão.

Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros, os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes, speechs, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas, bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu n'esta immensa apotheose.

E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais firme que nunca no amor dos novos.

Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo que o paiz podia desejar na sua situação presente.


O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações baratas e reles.

Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós, meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e miseravel.

Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.

Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só, teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa; far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas réclames com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens sentimentaes e sonoras do perfume dos seus cabellos, das pregas dos seus vestidos, da flexibilidade da sua estatura, etc. Houve um folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua magestade—a Magdalena!

Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera deitar fora com as camelias murchas.