O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro, foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos—quinze ou vinte—que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres, indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho, magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:—«Ó labrego, larga o rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:—«Beijos de homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»

O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados, perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza. Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao deixar a patria.

Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta couvre-pieds, que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas, com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os dois primos juntos.

Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias, contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional—a fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte—a imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o, desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações. Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim, invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe fizesse justiça. «Exijo—dizia elle—que me paguem indemnisação na medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida, repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de menos. [ 1]

[1] Textual.

Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados, tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a suppõe susceptivel.

Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de libras por cada paquete.

Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar. Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.