As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a opportunidade do modo como.

É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de honra aos portuguezes residentes no Brasil—1.° indemnisando os emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da indisciplina dos homens.


Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno riacho obscuro que ali passa.

Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos, todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos, todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os projectos das pontes.

A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou—por baixo da ponte!

Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da civilisação portugueza.


Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda, offerecendo-lhes em Palacio um [banquete] composto das iguarias mais finas e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço, carne guisada com batatas e laranjas.

No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a um gesto da regia munificencia o doutor roxo se repartira e prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta arte: