«Soldados! O principe, cujo pennacho branco vós tendes visto constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás victorias, o principe cuja espada invencivel vós tendes visto sempre no meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos, convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma coisa de que sua real magestade jámais se póde esquecer é a maneira como vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de seu real olho!
«Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe é occulto.
«Viu-vos caminhar ávante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos pelo peito como heroes! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar o ultimo suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao ultimo, até nada mais se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadaveres abraçados a um monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem, percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as vossas cinzas, restituindo-as elle proprio ás vossas viuvas, e dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um d'esses frascos, marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!»
«Foi depois de todas essas provações—tão arduas!—que sua magestade deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.
«Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de consideração e de amor, peço-vos que ergaes as vossas taças, de dois decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os quaes dou por finda esta allocução marcial. Viva sua magestade el-rei! Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!»
Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos toasts, porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de idéas contradictorias e confusas.
Expressos sob a fórma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:
«Capitão! Ha alguns annos que eu fui agarrado á força na minha terra para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá fiquei ás ordens.
«Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o tenente-coronel ou o proprio commandante me não fallam do meu ardor mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.
«Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na militança nunca tive ardôr mavorcio nem d'outra qualquer especie, a não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se é d'este ardôr que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha freguezia.