«Emquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria ao capitão se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender a disciplina alguns dos pontapés que em observancia da mesma disciplina não tenho até hoje feito senão receber.
«Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:—quem é o inimigo?
«Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco côr de pinhão, de gola levantada para cima, que ás vezes se mettia commigo nas guardas. Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso das artes da guerra.
«Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguem senão connosco. Pelo menos ninguem o teme senão a tropa.
«Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos quaes tem uma espingarda e uma bayoneta, é preciso pôr sentinellas a todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite, para que não nos surprehenda o inimigo!—Que é sempre com o que lhe dão:—com o inimigo!
«Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda não seguei.
«A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar ao som da musica ou para passear de sentinella á porta dos edificios publicos.
«Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa. Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.
«Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este banquete olympico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo. Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao pé do lar, no casal da minha velha ... Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz idéa ... Fallo-lhe da minha mãe.
«Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje tinhamos lombo assado á fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que lombo aquelle, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar outra vez se fosse d'esse lombo que me déssem! E depois não era o rei que me convidava a mim,—o capitão ha de comprehender o effeito moral d'esta differença—era eu que poderia convidar o rei a comer no meu casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar com o meu trabalho, com a minha força, com o meu prestimo! Na minha aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho e com o meu cajado, o rei era eu!