A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a celebração do jubileu academico, pedindo a publicação de uma historia d'aquelle instituto, virá por meio d'esse documento recordar o papel brilhantissimo que teve na historia das idéas em Portugal essa corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a reatarem a tradição gloriosa d'aquelles que os precederam na direcção intellectual do paiz.
A Academia Real das Sciencias foi o foco da revolução e o berço da moderna liberdade em Portugal.
Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente publicado—Bocage, sua vida e epoca litteraria—encontram-se os mais preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria, documentos até hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se teem feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor. Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros academicos.
O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas contas para as secretarias, manuscriptos conservados na Torre do Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos, accusando-os como sectarios das idéas da Revolução franceza, relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos á legação de França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares finalmente que em certa noite vão debaixo das proprias janellas do paço entoar a canção do Ça-ira.
Os cabeças d'este movimento de revolta contra o despotismo monarchico-catholico são designados pelo intendente Manique com o nome generico, ainda hoje em voga, de philosophos modernos. Os livros dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são sequestrados na alfandega.
A publicação de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia é impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adhesão d'esta companhia ás idéas francezas é manifesta em muitas passagens dos registros policiaes.
«Acha-se n'esta corte—diz o intendente Manique—nas casas da Academia das sciencias, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo abbade Correia, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sessão da convenção Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao duque de Lafões na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do abbade Correia que é amigo mui particular do ministro e consul da America do Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»
Eguaes accusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da Recreação Philosophica o Padre Theodoro de Almeida, «com o qual, accrescenta Manique, o já alludido Broussonet fica algumas vezes na casa do Espirito Santo de Lisboa.»
A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revolução, levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas instituições em 1834 e a liberdade subsequente.
A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma que era no fim do seculo passado.