Não é no estado de indifferença, de egoismo e de ignorancia em que ainda hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das creações da arte.
A intervenção das academias como elemento official e conservador pode ser util e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade historica e lançar a sociedade na anarchia. Ahi compete ás academias salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.
Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e invasoras dos espiritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia, que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu gremio as intelligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais vivos da philosophia, aclarando todas as questões relativas aos maximos interesses do espirito, á religião, á politica, á esthetica, implantando finalmente a revolução na esphera intellectual para que d'ahi ella penetre nos costumes e se infunda nas instituições.
Se o desempenho d'este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporação livre. O poder espiritual, de que ella é a encarnação litteraria, não lhe procede de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.
Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por elles, estabelecida em um palacio ou refugiada em um sotão, recrutando os seus membros entre os invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos da controversia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas uma:—ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma excrecencia apparatosa, um orgão atrophiado e inutil á civilisação.
Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espiritos—ou seja lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria dá um d'esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e reforça ou reage sobre ellas e as decompõe. Toda a litteratura ou é conservadora ou é revolucionaria. Queremos dizer: ou transige passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impõe.
Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em que a litteratura não fez mais do que fortalecer as superstições que achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de que se compõe a bibliotheca bollandista, e são esses acta sanctorum quotquot tote orbe coluntur que encerram a historia inteira da humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o Oriente, desde o seculo VI até o seculo XII! Com razão conclue Buckle—o grande historiador da civilisação—que o maior dos estorvos do progresso tem sido a manutenção do erro pelo poder litterario.
Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente da intelligencia e da dignidade humana.
Portanto: a primeira condição social para a existencia de uma litteratura compativel com o progresso é a liberdade.