Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia, por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade, falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas gerações que nos precederam, foi deixando a grilheta da oppressão mental. A nossa tendencia de escriptores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da credulidade geral.
A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precauções da forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miseravel de pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o respeitavel publico.
Entre as aberrações eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no folhetim,—apparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena litteratura portugueza destinada a ser um agente na evolução das ideias e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos sociaes, [O crime do padre Amaro], representa a obra mais profundamente caracteristica.
Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode parecer o resultado de um mot d'ordre. Cremos, para honra do jornalismo, que a razão do apparente despreso de que foi objecto este romance está no simples facto de que a critica se considerou incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas as Farpas deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia escreviamos um artigo ácerca do adulterio; a logica arrastava-nos a deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo até o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omittimos uma opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos analysadores que se nos seguissem.
O crime do padre Amaro é effectivamente difficil de sentenciar porque constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as audiencias geraes do folhetim e do noticiario.
Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert, porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caracter que o distingue como verdadeira obra d'arte.
Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O officio do historiador é discernir no estudo das epocas e no estudo dos acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista é discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu caracter artistico. O methodo do historiador é o methodo do romancista. Não pode ser romancista um simples observador. Cada sciencia tem, como diz Littré, o seu methodo particular e caracteristico. A observação é um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis o astronomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela experiencia e pela analyse. O biologo tem por methodo especial a comparação. O historiador, e por tanto o romancista, teem como instrumento particular a filiação, isto é, a producção dos estados sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter é expor no personagem a figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada porção do espaço e do tempo por um certo estado social.
Um caracter é um phenomeno historico, que se não comprehende senão emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.
É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um acto;—influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade; influencias sociaes, as instituições, os costumes, a familia, a educação, a profissão.
Comprehende-se a commoção de surpreza que produziu este livro, ao notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questões physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a sentimentalidade e o mysticismo, isto é, todos os pontos de controversia philosophica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.