Pela nossa parte, como é precisamente o conflicto que constitue o nosso programma, não temos rasão plausivel para abster-nos da apreciação d'este livro.

A rasão da condemnação silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a apparição do Crime do padre Amaro está no simples facto de que elle é um romance de caracter. Esta simples designação explica tudo. O genero é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco são romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á litteratura de tricot cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas miss. Apesar das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz não teem alcance social, são meras narrativas de salão.

O livro do sr. Eça de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma obra d'arte suggerida pela consideração de um problema social.

E todavia O crime do padre Amaro não é de nenhum modo um livro de critica, é um livro de pura arte na mais alta accepção d'esta palavra. Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma palavra declamativa ou didactica.

Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que lhe estão preparados, calça uns chinellos de ourelo, veste o casaco velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego, caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos, compungidos, pretenciosos, miseraveis.

D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a acção destaca-se luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no sonho de Machet.

Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.

O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros stylistas francezes não conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza, pela incomparavel variedade das suas construcções grammaticaes, pela inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execução sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do estylo erudito.

O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a preoccupação do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi arrancado da indole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuino e tão accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramaticas mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves occasos do outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais profundamente real do que a impressão deduzida d'esse contraste entre a inclemente immobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das supremas paixões no fundo da alma humana!