O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia psychica.
A infancia de Amaro em uma casa nobre, onde a mãe d'elle era criada de quarto. Os pequenos pormenores d'esse interior de familia, onde o catholicismo era um requinte heraldico, onde as meninas, acreditando em Deus como na omnipotente elegancia, tinham como culto dos destinos da alma a preoccupação da toilette com que haviam de entrar no paraizo. A creação de Amaro até aos doze annos n'essa convivencia mulheril, ajudando ás missas na capella, espanando os santos, aparando as hostias, dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam Padreca, Frei Lombrigas, e o utilisavam nas suas intrigas para «fazer as queixas.» A sua mocidade no seminario, «abafando na estreitesa dos corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro!» Os seus primeiros alvoroços de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros dogmaticos: «Que ser era esse que atravez de toda a theologia ora era collocado sobre o altar como a Rainha da Graça ora amaldiçoado com apostrophes barbaras? Que poder era o seu que a tragica legião dos santos, ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixão extactica, dando-lhe n'uma acclamação o profundo reino dos céus, ora vae fugindo diante d'ella como do universal inimigo com soluços de terror e com gritos de odio, e, escondendo-se, para a não vêr, nas thebaidas, nos claustros e nos sepulchros, vae alli morrendo do mal de a ter amado? Amaro sentia, sem as definir, estas perturbações, e julgava-se desgraçado e maldito.»
Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem, branco, lymphatico, molle, creado entre chumaços de mulheres ordinarias, e sobrepelizes de padres boçaes, no fartum das alcovas sujas e na sombra humida dos claustros musgosos. E prevê-se a quéda fatal d'essa natureza stagnada e paludosa, atravez da qual os desejos insaciados luzem como os olhos de um tigre.
É egualmente bem assignalado o caracter de Amelia. A sua educação sentimental e devota é descripta a golpes de bisturi. Cada traço é uma incisão. Aos oito annos tinha ido para a escola. A mestra era uma velhita roliça e branca que fôra tacho das freiras de Santa Joanna em Aveiro; com os seus oculos redondos, junto da janella, empurrando a agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas legendas, as suas peripecias; as perrices da escrivã sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de canto-chão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e chamando:—Augusto! Augusto!... Tinham-lhe ensinado o cathecismo e a doutrina: fallavam-lhe sempre dos castigos do céu; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um Ser que dá o soffrimento e a morte, e que é necessario abrandar resando e jejuando, ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia porque temia que Deus lhe mandasse sessões ou a fizesse cair na escada.» Além da doutrina aprendera a tocar piano com um velho romanesco. Lêra livros de versos, fôra namorada durante uma estação de banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava pedida por um escrevente de tabellião, que se perturbava sob o seu olhar voluptuoso mas que ella não amava, sentindo em si «como um grande somno do coração.» Não tinha pae. Era sanguinea e forte, de grossos beiços levemente sombreados de pennugem negra. Ouvia missa todos os dias e confessava-se todas as semanas.—A mãe era protegida por um conego. Ella padecia tedios nevralgicos e inquietações hystericas.
Todos os demais personagens, alguns d'elles apenas indicados por quatro palavras, que têem o poder de uma evocação, o conego Dias, o padre Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio Esguelha, o escrevente, o redactor da Voz do Districto, as senhoras Gançosos, a sr.ª D. Maria da Assumpção, a Joanneira,—vivem, têem uma physionomia, uma personalidade.
O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da Cortegaça, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do escrevente, passadas commedidas pelas d'elle, acompanhando-o como o remorso, como o presentimento da catastrophe que se aproxima; o infanticidio perpetrado no escuro, com os pés no lodo, á beira do rio, escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma serena tarde de outomno, de uma poetica serenidade ineffavel, partindo a cavallo no momento em que os sinos da sé começavam a soluçar o dobre de defuntos, emquanto um realejo toca na rua um trecho da Norma, e, de uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janella pelo pae e pela mãe que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mãosita papuda;—constituem paginas de uma concepção e de uma tonalidade tragica, profundamente elegiaca e solemne, que fica vibrando por muito tempo na memoria como o ecco funebre de um dies irae.
Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no espirito uma forte impressão consoladora; é a obra de um grande artista, de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisação perfeita, repousa-nos das nossas preoccupações pessoaes e egoistas, engrandece-nos, eleva-nos aos nossos proprios olhos, infunde-nos a fé, obriga-nos a crêr no sagrado desinteresse da arte, na divina immortalidade do bello.
Se depois da idéa que procurei dar-te d'este livro, tu, leitor me perguntares se o deves dar a ler á menina tua filha, eu respondo-te terminantemente que não. As meninas nunca lêem romances, quaesquer que elles sejam.
Se o podem lêr as mulheres—é uma outra questão, á qual respondo que podem, ainda que com esta reserva—ás escondidas.