Não que este livro seja immoral. A arte é absolutamente independente da moral, e não póde nunca nem servil-a nem prejudical-a.
Quando para minha consolação e refrigerio eu me desvio da estrada em que succumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descançar um momento á sombra de uma arvore, não pergunto se essa arvore dá peras ou se dá pilritos, se da sua resina se póde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus filamentos se póde entrançar uma corda para o sino ou um baraço para a fôrca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a arca ou para armar o patibulo. A unica coisa que lhe pergunto é se ella tem, para m'a dar, uma boa sombra fresca, macia, aromatica; e se a tem, eu, que n'esse momento não sou um negociante de productos alimenticios, nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim um caminheiro prostrado, eu declaro, não só em meu nome, mas em nome da sciencia, em nome da moral, em nome da religião, em nome do homem e em nome de Deus, que essa arvore é boa, é util, é necessaria—não pelos materiaes que ministra, não pelos fructos que produz, nem pelas substancias que segrega, mas unica e simplesmente por uma condição imponderavel e etherea, da qual em dada crise pode depender o meu destino inteiro e toda a minha vida; e essa condição é a de se interpôr no espaço entre mim e o ceu, e projectar sombra.
Na esphera das multiplas vegetações do nosso espirito a sciencia e a philosophia fornecem as substancias alimenticias e ministram os materiaes das construcções; a arte é a arvore santa, a arvore da sombra para os peregrinos do pensamento.
Schiller em uma das suas cartas, cujo texto não tenho presente, expôe uma theoria que pode resumir-se n'estes termos: «Se um critico em nome da moral processa o meu livro não pelo que eu n'elle escrevi mas pelas conclusões que elle critico lhe extrae, eu despreso esse julgamento. Se, porém, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi, eu poderia executal-o por outro modo, eu n'esse caso submetto-me, não porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.
Ora na execução do livro do sr. Eça de Queiroz ha na parte descriptiva dois ou tres pormenores que não quereriamos eliminados—com quanto isso fosse possivel sem quebra da verdade—mas que nos parece poderem ser referidos de um modo—não dizemos mais pudico—dizemos mais artistico.
Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até o sr. Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o attributo de uma escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analyses da torpeza e da podridão.
O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: «Elle deprimiu tudo aquillo em que pegou, eu enobreci tudo aquillo em que toquei; os homens saidos das minhas mãos respiram gladios e lanças, capacetes de pennachos brancos e escudos reforçados com sete couros.» Os artistas modernos não podem infelizmente inscrever nos seus brazões a nobre divisa do velho tragico. A sociedade actual não fornece á arte os grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as depravações contemporaneas não gravitam em torno do crime heroico mas sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos não parece egualmente inevitavel é que o puz do tumor salpique a mão que o opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou tres vezes como acima dissemos, na obra tão profundamente casta do sr. Eça de Queiroz é que os seus instrumentos anatomicos, tão bem acerados e tão finos, teem os cabos demasiadamente curtos.
A dissecção—permitta o nosso amigo que lh'o observemos—tem tambem as suas leis de conveniencia e de elegancia. Além de que, para estudar um orgão é ocioso expôr aos olhos do amphitheatro toda a nudez do cadaver. Mesmo em anatomia o completo conjuncto é obsceno, porque é inutil.
As damas da côrte tão pointilleuse de Luiz XIV—ellas que representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais exigente no decoro e no gosto—frequentavam, sem offensa do seu fragil melindre de estufa, os theatros anatomicos.
«Á medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem á moda punha em moda a anathomia, a qual, encerrada até ahi nas escolas de medicina ou em Saint-Côme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela mão d'elle.» O tacto especial de Verney contém um exemplo que pode não ser inutil ao sr. Eça de Queiroz.