Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.


Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser em prosa villôa como a do seu competidor?

O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima referido de 1:500$000 réis.

Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis 1:500$000?

Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:

Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em uma avant-scène, durante uma ou duas representações das suas peças, o vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de 5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos silencios da noite:

«Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto, Barbadão!»

Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!

Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do brinde que lhe lhe compete.