A duqueza intervem com esta conceituosa mas intempestiva maxima:
Jamais decepes com manchil odioso
A cabeça de um justo. É horroroso!
O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...
Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
O descendente, como pune o ultraje,
Que lhe fizeste, Leonor! Apage.
Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que, presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D. Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?
Omnipotente Deus! quiz o destino
Dar existencia ao throno manuelino!
Quem predissera tal, filho cadete,
Quando surgiste á luz em Alcochete?!
Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr. Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta familia:
A não ser o real, não ha poder,
Que possa hoje nos reinos exceder
O de nosso senhor! Póde D. Jayme
(Ó fóros brigantinos inspirae-me)
Nas salas dos seus paços ter doceis
E sitiaes nas egrejas dos fieis.
Forrada com arminhos, rica, larga
Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
Ante si leva estoque, segundo acho,
Com o extremo voltado para baixo,
Distinctivo dos reis, que é para cima.
Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!
A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem precedentes—tomando banho!