SUMMARIO
A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do dente pelo [sr. Assumpção]. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.—O drama [Leonor de Bragança] e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.—As corridas de cavallos—O premio do [Jockey-Club] e o premio da Academia—O progresso em Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias—A [peregrinação a Roma]. Os preparativos. A partida. A prescripção da toilette. A chegada a Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o restaurant, o trem de Paris, as parties fines sobre a relva, o Champagne e as bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de [Darwin]. Os novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do [Padre Marnoco]—A primeira communhão de sua alteza o principe—A [civilisação africana] e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz: Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores.
Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor e da brisa—como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico balcão de D. Mafalda—tinha estendido sobre as campinas o seu manto de esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou desembarcando na gare de Santa Apolonia.
Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara em cinco annos de choito glorioso atravez das diversas provincias da publica administração.
Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:
Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum tempo da azemola do poder.
Vozes de amigos intimos desapontados.—Oh! oh! Não o cremos!... Não o podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S. ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos, para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um pretexto, haja uma razão!