D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da [civilisação africana], poderia intitular-se: Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores.


A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.

Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos nossos descobrimentes e das nossas conquistas:

Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque—diz João de Barros—como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava em cama, quando mais não podia. Albuquerque que em saude reunia á força physica a grande força moral da alegria—era homem de muitas graças e motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,—assim tocado de morte por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães, nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias com o direito por via da conhecida phrase: mal com o rei por amor dos homens, mal com os homens por amor do rei.

O infante D. Henrique—segundo o mesmo João de Barros—tinha largos e fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada, em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos algum tanto alevantados, e o acatamento (por a gravidade de sua pessoa) um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento.

Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça, mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver, porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os buscava. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do berço usara o officio das armas.»

Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a photographia moderna de um sportman da Grã-Bretanha.

Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia tornavam-o proprio para o commando

O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, viajou as sete partidas do mundo, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que infundia terror».