Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.
Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.
Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da baleia ao cabo de Finisterra.
As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas grandes pescas que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.
O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17 milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12 mil marinheiros.
Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas legisladas pela Revolução.
Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto. D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.
Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas constituem um artigo especial presadissimo dos gourmets; dos intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se com grande vantagem na pesca da sardinha.
Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau, pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar, o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração colonial, um só instante de attenção.