O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.

Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as instancias feitas para este fim teem sido inuteis.

Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo nacional!

E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr. marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas. Cheios de vermine, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas, que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo fisco.

Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida terra da patria!

A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes amos.

E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia, feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!

Como a administração das nossas colonias depende directamente da organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.

Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das conferencias—um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de applauso para a missão do sr. Capello—o primeiro passo para atacar o mal na sua verdadeira origem!