Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos escravos, que ainda ali vigora.
Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.
Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.
Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental, levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de Moçambique.
Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem—o doutor Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos, desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.
Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero, deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.
Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas as leis da natureza humana.
Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo para nos informar do que se passa em Africa!
O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita em Londres foi o seguinte:
«Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro dizendo-nos: Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos. Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa, trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»