Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.
Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot, confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em Lisboa em uma carta publicada no Progresso pelo sr. Pinheiro Bayão, que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.
Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa [ 1] e de todo o parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva compacta.
[1] Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o Seculo, de Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente escripto pelo sr. Correia Barata.
A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso da sociedade humana.
O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que dar-lhe:—nomear uma commissão de inquerito que syndicasse rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.
Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao sr. Cameron as informações que este lhe prestára.
D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do Times a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se pode inflingir a uma sociedade.
O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso que dizemos aos srs. deputados:
A verdade, meus senhores, é o que vos disse o Times. «A questão, como diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»