O orador—Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada relativa á bala do inimigo ...
Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas podre.
Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...
O sr. Presidente—Peço perdão para ainda uma vez interromper o illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.
O orador—Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não ousava aspirar.
Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»
Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr. Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao soberano o dente resignatario.
Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na maxilla do illustre estadista.
Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre, com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.