Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza d'este facto.
Na sua [Leonor de Bragança], escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos entende que a duqueza é innocente. Na sua Leonor de Bragança, escripta em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.
Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos, trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr. Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de Leonor.
No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em haver o pagem um coração. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente haver em logar de ter, não só nos casos em que esse verbo é usado como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo ter. O simples depoimento do verbo haver, conjugado com tanta lealdade, cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer da innocencia de Leonor.
Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de um caracter fortuito absolutamente illibado.
A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando no verbo haver, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:
Duqueza—Houveste alfim volvido?
Pagem—Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?