Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Correspondencias minuciosas explicam detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios, dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo. E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

—Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola, seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de Jesus Christo?! Nosso Senhor tambem pediu!!... Em que escola aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas, conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo, dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e immunda.

Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho cerrado e os bicos dos nossos sapatos—de tres solas repregados de terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de moscardos—concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos rapazes onde era a escola.

Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.

Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade, habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis, rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.

São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento successivo das cadeias e dos hospitaes.

Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos, uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as medas ou a debulhar o milho.

Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos chamar:—o premio Monthyon da malandrice.