Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro da corôa, o sr. Barros e Cunha.
Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.
Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.
Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.
Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados na qualidade de leitor do [Times] por um circulo do reino em que se não sabia inglez.
Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s. ex.ª.
Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante da camara e da galeria, folhear os numeros do Times collocados sobre a sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal, como a de quem falla por um nariz de assucar.
No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha, carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto, lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.